por André Laurentino
Um grande desejo é ser irresponsável. Não consigo. Quem é filho único se acostuma cedo a ser a única chance, a desempenhar conforme o esperado. Claro que nós, filhos únicos, só vamos perceber isso anos depois, quando os gestos já estão calejados pelas expectativas alheias, que se convertem nas nossas.
O vulgo diz que o filho único é egocêntrico, ou seja, um felizardo. Mal sabe o vulgo que vivemos no inferno de ser o centro do mundo.
O filho único acha que o carro que dispara o alarme no meio da noite é sempre o dele. E que todos acordam por sua culpa. Vivi anos nesta angústia. Uma angústia piorada por dois fatores: meu quarto era ao lado de um estacionamento. O estaciomento era ao lado do Hospital Sírio Libanês. Quando eu via um paciente, tinha ânsias de saltar-lhe nos pés e pedir desculpa.
O filho único acha que se o restaurante é ruim, a culpa é dele (dele filho, não dele restaurante). Tanto pior se tiver ido jantar com uma mulher por quem tem interesse. Uma das poucas, além da mãe, a ter expectativas a seu respeito. Frustrá-las seria como frustrar-se. E este é o pior castigo para um filho único.
Também é do filho único o respeito ao síndico. Um síndico é o pai do prédio, e não deve ter sua autoridade sob suspeita. Já cheguei a comprar flores para me desculpar com os vizinhos pelos transtornos de uma reforma em meu antigo apartamento. O síndico me proibiu de depositá-las na portaria. Obedeci.
Filhos únicos dão bons contadores, revisores de textos, bandeirinhas, caixas de banco, advogados e taxistas.
Filhos únicos sabem que a preferencial é de quem está na rotatória. Tomam buzinadas, broncas e batidas.
Filhos únicos têm dificuldade para demarcar território. Um gato pode fazer xixi nos seus pés, e apoderar-se deles. Jamais o inverso. Filhos únicos não fazem xixi fora da privada.
Filhos únicos choram diante da vista do Terraço Itália. Muitas janelas são alternativas, são outras vidas que não a dele, outros sonhos. São outras pessoas ao redor de quem o mundo também gira. É um espetáculo discreto; e comovente.
Mas não somos assim para sempre. O mundo se encarrega de nos dar irmãos que nos tirem brinquedos, puxem nosso cabelo e ralem nosso joelho. Eles aparecem a partir da adolescência. Depois no trabalho, no trânsito, nas chatices.
O duro é ter que aprender na frente dos outros, e sob controle, aquilo que se aprende no jardim da infância, quando se pode chorar, gritar e espernear sem alarde.
Ser filho único é chato. Mas ser responsável é bem pior.
André Laurentino é olindense e vive em São Paulo, onde é roteirista de TV, redator de propaganda e colunista do Guia do jornal O Estado de S. Paulo. É casado com uma filha única, com quem tem duas filhas. Leia outros ótimos textos, como O tempo, em www.andrelaurentino.blogspot.com
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